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[Bau de Fics - 2015] A Hora do Caçador - Fanfic do Mês

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John51

Autora: Menta


Bom, gostei bastante da ideia de um concurso de fanfics. Divirto-me muito escrevendo, então resolvi aproveitar uma ideia de sobrevivência alternativa que sempre pensei enquanto assistia TWD para disponibilizar aqui, já que o primeiro tema será apocalipse zumbi. Eis o texto, sem mais delongas:


A Hora do Caçador


O que aconteceu conosco? O que aconteceu com o mundo?

O que aconteceu... Comigo?

Bem, ninguém sabe realmente como tudo começou. Não sabemos o que é que causa "isso", nem realmente temos certeza sobre como se espalha.

Sabemos apenas que o mundo como o conhecemos antes já não existe mais. Empregos, ocupações, funções sociais... Não há mais sociedade. O nosso cotidiano, agora, é algo muito diferente.

Tudo se resume a seguinte frase: cace ou seja caçado; não há outra escolha.

Meu nome é Bianca Tavares, sou portuguesa e tenho 27 anos de idade. Até antes deles, eu exercia a profissão de bióloga marinha. Trabalhava no Oceanário de Lisboa, o maior aquário do mundo, repleto de diversas espécies de animais do mar. Foi um emprego concorridíssimo que consegui a duras penas quando este tipo de coisa ainda existia. Quero dizer, quando empregos existiam, pois competição, hoje em dia, é também algo tão comum que beira a ser banal.

É o preço a se pagar. Como eu disse antes: se quiser viver, terá de ser o predador, pois não há mais lugar para as presas.

Talvez você esteja achando tudo isso cruel demais. Ou que eu sou uma pessoa horrível. Posso compreendê-lo. Também pensaria assim, se eu ainda fosse quem eu era antes de tudo começar.

Se tiver interesse, posso lhe contar do evento que me transformou. O que permitiu que eu suportasse. Quando você ultrapassa certos limites, não há mais volta. Não há mais você. Há, apenas, aquilo que você virou.

Algo parecido com quem se transforma nestes mortos-vivos.

*****

Tudo começou alguns meses depois que a nossa vida virou esse inferno.

Eu e alguns poucos sobreviventes, dentre eles, meu irmão, nos abrigamos dentro do Oceanário de Lisboa. Formávamos um grupo de cerca de meia dúzia de pessoas, e nos ocupávamos mantendo o local funcionando, para preservar nossa sanidade. Um de nós era o zelador principal, que inclusive sabia como manusear o sistema elétrico e outros aparelhos do oceanário, como o maquinário de limpeza de aquários e outros procedimentos.

Além de tudo, o oceanário tinha um forte gerador de energia elétrica, o que nos permitiu uma boa dose de conforto por muito tempo. E eu, como uma das biólogas do local, conhecia a construção como a palma da minha mão. Assim, eu e o zelador nos tornamos os líderes desta pequena sociedade em formação.

O Oceanário de Lisboa é hermeticamente fechado, para permitir que a temperatura dentro dos aquários mantenha-se sempre agradável às diversas espécies que abriga, e, ainda por cima, fica em uma localidade próxima ao mar, cercada por água de todos os lados. Descobrimos que lugares assim costumam ser evitados por esses mortos-vivos. Se caem na água, não conseguem nadar nem se movimentar, deixam de ser uma ameaça para os que estão na superfície.

Logo, bastava que não saíssemos e tudo continuaria bem.

Dentro dessa nova rotina, os primeiros a morrer foram os pinguins. Evitávamos ligar a energia elétrica ao máximo para preservá-la, então o sistema de refrigeração nos compartimentos em que os animais viviam logo parou de funcionar. Pouco tempo depois, eles não sobreviveram às condições tão diferentes de seu habitat natural. Com isso, o grupo quase fez uma festa. Tínhamos uma "churrascada" garantida por algum tempo.

Conforme os meses passavam, os predadores aquáticos também passavam a ter mais fome. A ração para peixes foi estocada para que nós mesmos a utilizássemos em casos extremos de falta de comida; apesar de alimentá-los, limparmos os aquários, os corredores e outras tarefas do gênero, evitávamos gastar qualquer coisa que fosse considerada fonte de alimento. Diante disso, os tubarões estavam incontroláveis.

Seria uma questão de tempo até que não houvessem mais peixes para nos alimentar, e o suprimento de comida da cantina local já acabara havia muito.

Por conta deste impasse, decidimos que o zelador e meu irmão, um dos homens mais fortes e ágeis presentes, iriam para o lado de fora pela primeira vez em muito tempo. Preferiam ir em dupla para chamar menos atenção. Destarte, pescariam nas regiões adjacentes por algumas horas, usando um dos veículos que sabíamos ainda ter gasolina, parado diante da porta principal do oceanário. Fora o carro que eu usara na fuga de casa, dias após esse pandemônio. Trouxe junto comigo meu irmão, o único membro da família que consegui encontrar a tempo.

Nesse dia, fora graças ao zelador que conseguimos entrar. Ele me reconheceu pelas câmeras de segurança e abriu uma das portas de manejo eletrônico. Foi por muito, muito pouco, que não fomos devorados vivos pela horda que se aproximava do meu carro.

Assim, aguardamos a volta da dupla de pesca. Mantive o grupo calmo enquanto pude, mas depois de doze horas passadas tivemos de ligar novamente o gerador de energia. Usamos todas as câmeras de segurança disponíveis para achá-los, e, finalmente, os vimos cruzando a ponte que liga o oceanário à terra com o meu carro estilhaçado, amassado, os pneus cantando à toda velocidade.

Abrimos a porta na frente da qual eles haviam parado, e fui de encontro a ambos. Meu irmão mancava, sua perna direita sangrava, manchando o chão com um rastro vermelho nefasto. O machucado em sua perna não negava a dura realidade: mordidas. Múltiplas seguidas.

O zelador me encarou e eu o olhei de volta. Mutuamente, nos compreendemos.

Avisei ao grupo que cuidaria dele e tentaria limpar o machucado. Podia ver alguns rostos reticentes, mas a maioria talvez ainda esperasse ingenuamente alguma possibilidade de recuperação, pelo olhar preocupado e talvez até mesmo esperançoso que me lançaram ao ouvirem minha resposta.

Pedi para que nos dessem privacidade, e, antes de voltar às costas para eles, dei uma última olhada para o rosto do zelador. Seus olhos espertos brilhavam com argúcia, uma expressão de reprovação brilhante em seus olhos. Sabia o que eu iria fazer.

Mas teria de ser feito.

Subi alguns andares de escada, apoiando meu irmão em meus ombros, até uma sala determinada. Ela era praticamente vazia, ampla, arejada, com uma grossa alavanca do lado direito e alguns objetos de uso manual para o bom funcionamento do oceanário.

Sentei-o ao chão daquela sala quase vazia. Enquanto o ajudava, meu irmão gemia de dor pelo ferimento horrendo em sua perna atacada pelos mortos-vivos. Odiei-os como nunca os tinha odiado antes. A certeza invadiu minha mente.

E, por conseguinte, eu me odiei ainda mais.

- Isidro. Consegue alcançar essa caixa de ferramentas nessa pequena mesa? - Apontei para o objeto mencionado.

Assim que meu irmão assentiu e virou o rosto e o tronco em direção à mesa ao seu lado esquerdo, eu apontei uma das armas que saqueara do compartimento de segurança. Mirei com precisão, e atirei em cheio em sua testa.

Sabia que era uma questão de minutos para que o grupo se assustasse com o ruído do tiro, ainda que as grossas paredes fossem disfarçá-lo bem. Não tinha tempo a perder.

Engoli o choro maldito que tentou subir à minha garganta. Naquele mundo, não havia mais lugar para as lágrimas.

Nunca mais.

Corri em direção à alavanca do lado direito da sala, e a puxei com força. No centro da sala, um vão se abriu conforme eu a movimentava, impulsionando-a para trás. Em segundos, abriu-se um buraco em um formato quadrado de um metro e meio de comprimento e largura. Em seguida, vi o pé direito de meu irmão cair para dentro do buraco, onde antes repousava no que era o chão.

Subi os olhos e vislumbrei uma última vez o local bem próximo de onde o corpo morto de Isidro jazia, a parede atrás pintada com lufadas de sangue e partes de seu cérebro explodidas pela força do tiro.

Andei a passos largos até o cadáver de meu irmão, e o empurrei para dentro da água. Atirara-o, propositalmente, dentro do maior aquário.

Onde nadavam os tubarões brancos.

Finalmente poderia descer e me posicionar de frente ao vidro do aquário. Sabia que em breve o grupo viria para aquele ponto do oceanário, e veria o corpo do meu irmão despedaçado. Pensei que talvez fossem tentar me matar, julgando que eu enlouqueci, e não dariam tempo para que eu explicasse porque fizera aquilo. Na verdade, eu apenas nos livrara de um morto-vivo e achara uma forma de alimentar os tubarões. Tudo ao mesmo tempo.

Tive mais sorte do que imaginava. O grupo, talvez assustado demais para agir, ouviu o que eu tinha a dizer. Entenderam minha posição e compreenderam minha atitude. O zelador se mostrou menos confiante, e imaginei que ali tinha um potencial de discórdia muito grande para ser ignorado. Quando a ocasião foi propícia, pude me livrar dele e ele também teve seu fim junto aos tubarões. Mas esta é outra história.

Naquele momento, finda a discussão, apenas contemplamos o aquário por alguns segundos. Em silêncio. Dentro da água, não há ruídos, gemidos, soluços e pranto.

Parados, assistimos os animais enormes destroçarem o corpo morto de meu irmão com seus dentes fortes, rasgando a carne como se não passasse de algo frágil, com o peso e o volume de uma folha de papel. Depois de saciados, não restava mais nada além de alguns fiapos de roupa, e uma coloração vermelha em meio à água do aquário, dissolvendo-se aos poucos. Os tubarões passaram a nadar, majestosos, percorrendo o aquário em sua cor anterior, pacificamente azulada. Em seus movimentos sinuosos, nos lembravam de nossa evidente fragilidade em seu silêncio imperioso.

Desse dia em diante, nos organizamos em escoltas não para pescar lá fora, mas para trazer carne a estes senhores do mar. Carne de mortos-vivos.

Alimentar os tubarões é sempre o melhor momento dos meus dias.



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